Num pequeno porto dormia uma vela branca, dobrada dentro de um barco azul.
O dia inteiro ela escutava as histĂłrias das cordas, das gaivotas e dos remadores. Sonhava em se encher de vento, ver a costa se afastar e tocar a luz do mar aberto.
Mas quando o mar se mexia, a vela tremia.
âE se o vento for forte demais? E se eu rasgar? E se eu nĂŁo souber voltar?â
O barco respondeu: âEntĂŁo iremos devagar.â
Na manhã seguinte, uma criança subiu a bordo com o pai. Eles desdobraram a vela. Ela quis se esconder, mas o vento a tocou de leve.
âAinda nĂŁo vou empurrar vocĂȘâ, disse o vento. âSĂł estou mostrando que estou aqui.â
A vela respirou. Abriu-se um pouco. O barco avançou um metro, depois dois. O mar fazia pequenas dobras, não monstros enormes.
A vela ainda tinha medo. Mas percebeu que o medo podia vir junto sem segurar o leme.
Na volta, ela nĂŁo tinha se tornado uma vela sem medo. Tinha se tornado uma vela que conhecia sua primeira viagem.
Ă noite, dobrada no barco, murmurou: âAmanhĂŁ, um pouco mais longe.â
E o mar, suave contra a madeira, respondeu sim.
