Numa casa à beira-mar havia uma escada pintada de azul.
Os degraus subiam até o terraço e desciam até a cozinha. Quando o sol batia neles, parecia que um pedaço de mar tinha entrado em casa.
Nico gostava da escada, menos quando estava com raiva.
Naquele dia, seu barco de papel tinha rasgado. Ele subiu batendo forte os pés.
O primeiro degrau ficou mais escuro.
“Você carrega uma onda alta”, disse.
Nico parou. “Estou com raiva.”
“Então suba devagar.”
Em cada degrau, a escada pedia uma coisa: respirar, dar nome à emoção, sentir os pés, pensar no que o tinha machucado.
A raiva não desapareceu de uma vez. Apenas diminuiu, como uma onda que perde força antes de chegar à areia.
No terraço, Nico viu o mar de verdade. Ele também tinha ondas, e ainda assim continuava sendo mar.
Mais tarde, desceu a escada para consertar o barco.
Dessa vez, os degraus estavam azul-claros.
Desde então, quando uma emoção ficava grande demais, Nico procurava a escada azul. Subia ou descia, um degrau de cada vez, até encontrar espaço suficiente para escolher o que fazer.
